✦O Casal Legendáriopor Ricardo Martins & Vanessa Lima
Artigo

428 mil divórcios em 2024: o que o número do IBGE não conta

O IBGE registrou 428.301 divórcios no Brasil em 2024, queda de 2,8% em relação a 2023. Mais da metade envolveu casais com filhos menores. Ricardo Martins lê os dados das Estatísticas do Registro Civil e mostra o que a manchete esconde — e o que ela pede de quem ainda está casado.

428 mil divórcios em 2024: o que o número do IBGE não conta
ResumoA manchete diz que os divórcios caíram. Mas atrás de 428 mil processos tem quarto de criança dividido, mesa de jantar com uma cadeira a menos e gente que achou que nunca ia passar por isso. Ricardo Martins comenta os números do IBGE com olhos de pastor, não de planilha.

Quando o IBGE divulga os números de divórcio, a manchete do dia seguinte é sempre parecida. Em dezembro de 2025, foi esta: os divórcios caíram. Em 2024, o Brasil registrou 428.301 divórcios, contra 440.827 em 2023 — uma queda de 2,8%, a primeira desde 2020, segundo a Agência de Notícias do IBGE.

Eu li essa notícia e fiquei com uma sensação estranha. Porque número grande anestesia. Quatrocentos e vinte e oito mil é tanto que vira abstração. A gente lê, comenta “nossa, que absurdo” e passa para a próxima notícia.

Só que eu não consigo mais ler esse número como planilha. Eu já fui o problema do meu casamento. Sei o que tem atrás de um processo desses: uma casa inteira tremendo. Então quero fazer com você o que a manchete não faz — olhar devagar para o que esse número não conta.

O que o IBGE mediu de fato

Primeiro, honestidade com os dados. O número vem das Estatísticas do Registro Civil 2024, que somam os divórcios concedidos em primeira instância pela Justiça e os feitos em cartório (escritura extrajudicial). Alguns pontos importantes:

  • 81,8% dos divórcios foram judiciais; o restante, em cartório.
  • Para cada 100 casamentos entre pessoas de sexos diferentes registrados em 2024, houve cerca de 45,7 divórcios.
  • O próprio IBGE avisa que teve dificuldade para coletar dados em tabelionatos e varas, e publicou nota técnica sobre possível subenumeração — ou seja, o número real pode ser maior.
  • E, segundo a Agência Brasil, o instituto considera que uma queda de um ano ainda não configura tendência de redução.

Então, antes de comemorar: a queda é pequena, pode ser parcialmente efeito de coleta e não garante nada para os próximos anos. Notícia boa? Talvez. Motivo para relaxar? De jeito nenhum.

O que o número não conta: as crianças

Agora o dado que mais me pesou. Em 2024, 52,5% dos divórcios envolveram casais com pelo menos um filho menor de 18 anos. Mais da metade.

E veio outra novidade: pela primeira vez, a guarda compartilhada (44,6%) superou a guarda exclusiva da mãe (42,6%) nos divórcios judiciais de casais com filhos menores. Segundo a Agência Brasil, cerca de 118,8 mil crianças e adolescentes passaram a ter a guarda dividida entre pai e mãe só em 2024.

Repara: isso é uma conquista jurídica. A lei prioriza que o filho conviva com os dois, e é bom que o pai não seja apagado da vida da criança. Mas, dentro de casa, guarda compartilhada também significa mochila indo e voltando, dois quartos, duas rotinas, aniversário dividido em turnos. A criança não lê estatística. Ela lê a porta batendo.

A Bíblia termina o Antigo Testamento com uma promessa que me arrepia toda vez que leio:

“Ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais.” (Malaquias 4.6, ARA)

Deus encerra o último livro profético falando de coração de pai voltando para casa. Ele se importa com o que acontece dentro da família. E se importa com a criança que ninguém entrevistou para essa pesquisa.

O que o número não conta: o caminho até ali

Nenhum desses 428 mil casais acordou um dia e decidiu se divorciar do nada. A sentença é o último capítulo de uma história que começou muito antes: conversas que viraram cobranças, cobranças que viraram silêncio, silêncio que virou dois estranhos dividindo o mesmo teto.

A estatística registra a data do divórcio. Ela não registra a primeira vez que um deixou de perguntar como foi o dia do outro. Não registra o primeiro “tanto faz”. Não registra a noite em que alguém pensou “eu não aguento mais” e não contou para ninguém.

É por isso que eu insisto tanto com os casais: o divórcio não começa no fórum, começa na sala de casa. E, se começa em casa, também pode ser interrompido em casa — enquanto ainda há conversa, ainda há um mínimo de disposição, ainda há uma porta entreaberta.

O que o número não conta: os que ficaram

Tem um outro grupo que nenhuma pesquisa de divórcio mostra: os casais que quase entraram nessa conta e não entraram.

Gente que chegou a ver advogado e voltou atrás. Gente que dormiu em quartos separados por meses e hoje dorme abraçada. Gente que ouviu de todo mundo “separa, você merece coisa melhor” e escolheu dar mais uma chance para Deus agir.

Eu conheço esse grupo de perto. A Vanessa deu uma chance pra Deus quando quase ninguém daria. E a confiança voltou tijolo por tijolo — não num estalo, não numa campanha de oração de sete dias. Eu já escrevi aqui sobre casais infelizes que decidiram ficar, e é sempre a mesma lição: o fundo do poço não é o fim da história.

Preciso ser honesto: nem todo casamento é restaurado, e há situações de violência e abuso em que a separação é proteção, não fracasso. Não estou aqui para jogar culpa em quem se divorciou. A graça de Deus alcança quem está casado, quem está separado e quem está recomeçando.

Deus não lê números como nós

Quando eu olho para 428 mil, eu vejo uma multidão. Deus vê pessoas, uma por uma.

“Sara os de coração quebrantado e lhes pensa as feridas. Conta o número das estrelas, chamando-as todas pelo seu nome.” (Salmos 147.3-4, ARA)

O mesmo Deus que dá nome a cada estrela conhece o nome de cada marido, de cada esposa e de cada criança que está nesse relatório. Jesus foi ainda mais longe: “E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mateus 10.30, ARA).

E lembra da parábola das cem ovelhas? O pastor não fica satisfeito porque “só” perdeu uma. Ele “deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la” (Lucas 15.4, ARA). Para Deus, uma família nunca é só uma fração na conta. É alguém que Ele vai buscar.

O que fazer com esse número hoje

Se você é casado e chegou até aqui, não quero que saia só informado. Quero que saia com uma atitude. Três passos simples para esta semana:

  1. Faça a pergunta que você parou de fazer. “Como você está, de verdade?” — e escute até o fim sem se defender.
  2. Nomeie o que está esfriando. Toda casa tem uma infiltração começando. Conversem sobre ela enquanto ela ainda é uma mancha, não um teto caindo.
  3. Peça ajuda cedo. Pastor, conselheiro, terapeuta, um casal mais maduro. Quem espera a crise ficar insuportável costuma procurar ajuda quando um dos dois já desistiu.

E se você está no meio da tempestade, com a palavra divórcio rondando a sua casa, ouça: você ainda não é estatística. Enquanto houver uma porta entreaberta, Deus pode trabalhar nela. Comece pelo primeiro passo honesto de hoje.

Fontes

  1. Número de divórcios cai em 2024 após três anos de alta (Estatísticas do Registro Civil 2024) — Agência de Notícias IBGE, 10/12/2025
  2. Estatísticas do Registro Civil 2024 — informativo (v. 51) — IBGE
  3. Pela 1ª vez, guarda compartilhada é a forma mais adotada nos divórcios — Agência Brasil, 10/12/2025
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Ricardo Martins

Ricardo Martins

Ricardo Martins é escritor, pastor e porta-voz do movimento Legendários. Ao lado da esposa, Vanessa Lima, criou O Casal Legendário, que alcança milhões de pessoas com conteúdo sobre casamento cristão e restauração. Autor de "Quando o amor recomeça" (Citadel, 2026).

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